mito de origem

Mito de origem de Le fou

2013. Dilma Roussef era a presidenta da república do Brasil. Levantes aconteciam em todo o país. Beyoncé era Sasha Fierce no Morumbi. Outros estádios eram construídos nas capitais para a Copa de 2014. Poucos humanos falavam na peste ou da besta; o vírus. Sob as saídas de vento do metro da linha verde da Avenida Paulista, eu nascia Shanawaara.

Era Natal e eu nasci Shanatal. Aí Shanawaara morreu no Rito Funeral no Largo de Osasco, em novembro de 2017, perto do dia dos mortos. Mas Le fou já tinha nascido como intuição performática na França-Europa, meses antes disso:

Mergulhei em uma tentativa fracassada em busca do sucesso no verão da Alemanha sob o comando de Shanawaara. Um ano antes, eu era uma diva em turnê e estava rica na metrópole, com meu amante português suicida. Entendendo a gravidade da situação performada e a conjuntura da crise no Brasil, escolho matar Shanawaara.

Tabatinga, Amazônia-América, verão de 2017

Inverno na Amazônia. Shanawaara estava na Fronteira; território único. Tem Brasil, Colômbia e Peru. Da pra comer seviche, dançar música caribenha, dançar com os índios Tikuna. Agência de turismo da Colômbia levam turistas pra dentro da Floresta; zona franca, cassinos, rota da cocaína americana. No porto de Tabatinga, era Greve Geral no Brasil. Índios comerciantes, bêbados, travestis peruanas. Sem saber, Shanawaara representava sua cena maior. Buscar a glória na Europa pouco meses depois seria fatal. O encontro com a Morte aconteceria no equinócio da primavera osasquense.  

Chalon-su-suarne, França-Europa, verão de 2017.

Eu tava na França, seus troxa. Festival de Teatro de Rua de Chalon-su-suarne. Eu dormia na beira di rio, como muitos artistas. Todos tinham uma barraca e eu um saco de dormir e papelão. Tava bom; não chovia. Um dia acordei e tinham deixado dois croissants pra mim. Comi agradecido; não tinha veneno. Era meu café-da-manhã e nem sei quem me alimentou. Depois toquei trompete em uma viela medieval escondido; tava só praticando. Me acharam e me deram 13 euros. Agradeci e gastei. No fim, distribuíam sopa que cozinhavam durante a cena. Não tinha mendigo. Agradeci. A tarde, eu e um menino pretinho de cinco anos, que  nem me lembro o nome, formamos um dueto ao trompete. Seus pais nos receberam carinhosamente e nos alimentaram. Novamente agradecido. Não lembro o Tempo exato; mas foi por aí que nasci Le fou.

Olinda, Pernambuco-América, verão de 2018.

Segunda-feira. Era meu casamento no dia seguinte, na terça gorda de Carnaval. Olinda, 2018. Vish. Nem gosto de lembra. O resumo é  assim: me perdi do meu marido. A culpa é de quem? A comunicação de Olinda no Carnaval não ajuda e me deram pra lamber um pozinho branco. O fim da Macuca era numa comunidade e eu tava doido. Pouco tecnológico, meu celular cagado, uma questão social e bomba relógio. Meu marido me amaldiçoava e eu era o bobo do povo. Não foi bom. Terminei tomando um soco do traficante. Em casa, eu quase apanhei de novo, me mandaram pro Recife. Eu não fui. Dormi na rua, depois no quintal. Nem dormi-acordei: era Carnaval. Eu vestida de noiva, como combinado. Meu marido só brigava. Mas não resistiu. Jatobá e Fábio, como ele me chama quando tá bravo. Le fou ganhou castigo até a primavera de 2019, quando nasceu, mais longe do louco em direção ao mago. Aí veio o tempo da peste.

São Paulo-América, primavera de 2019.

O Carnaval tava chegando e eu precisava voltar ao espetáculo. De volta a São Paulo, era hora de mostrar quem matou Shanawaara, ou ao menos quem nasceu depois. Vivendo endividada na Zona Norte, era necessário mirar nos bailes de Carnaval dos SESCs e prefeitura para voltar ao espetáculo. Peço pra Tati da eutonia me ajudar na maquiagem pra nascer Rainha Alada ao Reino do Carnaval. Comprei meu figurino na cracolândia; a noite sarau em Carapicuíba. Olho espelho: – Oxente. Isso aqui não é rainha não. Ai minha pila: nasci Le fou.    

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